domingo, 14 de fevereiro de 2010

História dos Surdos no Mundo - cont. - 2

  • Abade Sicard (1742-1822)

Educado como um sacerdote, foi eleito director de uma escola de surdos em Bordeaux em 1786, e em 1789, sobre a morte de Charles-Michel de l'Épée, sucedeu-lhe em Paris.


O seu principal trabalho foi o seu «Cours d'instruction d'un sourd-muet de naissance» (1800). Sicard conseguiu escapar à quaisquer danos graves devido a problemas na política de 1792 (Revolução francesa), e tornou-se membro do Instituto em 1795, mas o valor do seu trabalho educacional foi praticamente reconhecido até pouco antes da sua morte em Paris.


Secar sucede a L’Épée no novo Instituto Nacional de Surdos-Mudos de Paris.

Simplifica o método daquele em benefício do significado no contexto concreto em que a expressão se produzia. No instituto são agora mais os professores surdos do que os ouvintes.

  • Pierre Desloges (1747-1799), surdo

Aos 7 anos contraiu varíola, doença que lhe provocou a surdez. Desloges não teve acesso à Língua Gestual até aos 27 anos, idade em que conheceu um surdo italiano que lhe ensinou esta língua.


Em 1779, escreveu o 1º livro publicado por uma pessoa surda, no qual defendia o uso da Língua Gestual na educação dos surdos.


Prova ainda no seu livro que a Língua Gestual Francesa já existia antes do aparecimento das escolas para surdos e que foi uma criação das pessoas surdas.

Isto ia contra a ideia que se tinha, atribuindo-se falsamente a criação da Língua Gestual ao Abade de L’Épée, aquando da fundação da 1ª escola residencial para surdos.

  • Jean Massieu (1772-1846), surdo

Surdo congénito, frequentou a escola para surdos de Bordéus que havia sido fundada e supervisionada pelo Abade Sicard. Quando Sicard foi chamado a Paris para substituir o Abade de L’Épée na direcção do Instituto Nacional de Surdos-Mudos, Massieu acompanhou-o desde cedo e tornou-se professor desta instituição durante 32 anos, vindo a ser um dos professores de Laurent Clerc.

Massieu foi um dos 1ºs professores surdos em todo o Mundo.

  • Barão de Gérando (1772-1842)

Tornou-se director administrativo do Instituto Nacional de Surdos-Mudos de Paris, nomeando Desirée Ordinaire como director da escola, pouco competente no ensino de surdos, prescindindo e expulsando Jean Massieu, que tinha sido sucessor natural do Abade Sicard.


Gérando via os surdos como selvagens e considerava que a Língua Gestual era uma espécie de mímica, e que não deveria ser utilizada na educação das crianças surdas.


Gérando considerava que os professores surdos deveriam ser substituídos por professores ouvintes e que a Língua Gestual deveria ser banida da educação dos surdos.


Após o falhanço do método que defendia para o ensino de surdos, Gérando compreendeu que a Língua Gestual era a principal forma de comunicação entre as pessoas surdas e aceitou que poderia ser utilizada na educação destas crianças, reconhecendo-a como uma verdadeira língua.

  • Jean Itard (1775-1838)

Médico, cujo o trabalho mais conhecido foi o do menino selvagem de Aveyron, que foi um fracasso. Após ter tratado um doente surdo do Instituto Nacional de Paris, foi convidado como médico residente do Instituto.

A partir daí dedicou-se exclusivamente ao estudo da surdez, iniciando uma série de experiências em surdos: aplicou cargas eléctricas, efectuou sangramentos, perfurou tímpanos e publicou trabalhos sobre a técnica especial de colocar catéteres nos ouvidos.


Para Itard, a única salvação para o surdo era o desenvolvimento da fala, apenas possível pelo treino de articulação e restauro da audição. Se esta fosse curada, a fala também seria. Ao dedicar-se a este treino, descobriu que os surdos até falavam, mas não de forma natural e fluente, e culpou a Língua Gestual desse insucesso.


Após 16 anos de estudos sobre a surdez, compreendeu que os surdos apenas podiam ser ensinados através da Língua Gestual, reavaliando, por isso, os seus métodos.

  • Laurent Clerc (1787-1851), surdo

Com mais de 1 ano de idade, descobriu-se que tinha perdido o olfacto e a audição. Passou a infância sem comunicar nem aprender a escrever e a ler.


Aos 12 anos foi inscrito no Instituto Nacional de Jovens Surdos-mudos, a primeira escola pública para Surdos a nível mundial, em Paris.


Em 1805 começou a trabalhar como tutor no Instituto e no ano seguinte assinou contrato como professor.

Em 1815 viajou para Londres onde demonstrou os métodos de ensino para Surdos, em várias conferências. Em 1816 partiu para os E.U.A, com Gallaudet.


Em 1817 começou a funcionar a escola de Hartford, que foi chamada de American School for the Deaf.

Em 1958 completou 50 anos de ensino (dos quais 41 anos nos E.U.A) e retirou-se aos 73 anos de idade , sem nunca deixar de defender a educação de Surdos.

  • Thomas Hopkins Gallaudet (1787-1851)

Em 1814 Gallaudet, durante umas férias na casa dos seus pais, em Hartford, um encontro casual com uma menina surda, Alice Cogswell, o fez decidir-se dedicar ao ensino dos surdos.


A partir daqui surgiu o seu projecto de uma viagem à Europa, a fim de reunir informações detalhadas sobre a metodologia utilizada na educação de alunos surdos, com o propósito de fundar uma escola própria em Hartford.


Gallaudet começou a averiguar, junto ao pai de Alice, acerca dos métodos de ensino para os surdos noutros países. Gallaudet realizou uma viagem à Europa, a fim de reunir informações detalhadas sobre a metodologia das escolas para alunos surdos, com o propósito de fundar uma escola própria em Hartford.


Gallaudet entrou em contacto com o abade Sicard, Jean Massieau e Laurent Clerc.

Gallaudet passou 2 meses com eles, a aprender a língua dos surdos franceses e os métodos de trabalho da escola. Laurent Clerc decidiu viajar aos Estados Unidos com Gallaudet, para o ajudar no seu projecto.


Gallaudet e Clerc abriram as portas da 1ª escola para surdos dos Estados unidos, a American School for the Deaf. Uma geração de estudantes surdos com uma língua comum, que depois ficou conhecida como American Sign Language (ASL), já era capaz de ler e escrever em inglês, o que foi um resultado desse projecto.


Depois da morte de Thomas H. Gallaudet, um de seus filhos, Edward Miner Gallaudet, participou da fundação do 1º colégio universitário para surdos, que em honra do seu pai foi chamado Gallaudet School. Esta instituição, fundada em 1857, deu origem à Universidade Gallaudet, localizada em Washington DC, e que hoje é a única instituição de estudos superiores do mundo para pessoas surdas. A língua oficial da universidade é a ASL.

  • Amos Kendall (1789-1869)

Em 1856, foi um dos muitos abastados de Washington procurados por 1 homem, que solicitava donativos para criar uma escola para crianças surdas da zona. Esse homem era Edward Miner Gallaudet, filho de Thomas Hopkins Gallaudet.


Compreendendo que estas crianças necessitavam de cuidados especiais, Kendall conseguiu efectuar uma petição ao Tribunal para obter uma doação.


Além de ter conseguido esta doação, o próprio doou 8000 m2 de uma propriedade sua a nordeste de Washington, para fundar uma residência e uma escola para estas crianças.

Esta escola abriu com 12 estudantes surdos e 6 estudantes cegos, com o nome de Instituto de Columbia para Surdos e Cegos. Kendall convidou para director da escola o próprio Edward Miner Gallaudet.

  • Horace Mann (1796-1859)

Viajou até à Europa onde visitou várias escolas para surdos, tendo ficado surpreendido pela forma como as crianças surdas faziam leitura da fala e usavam o discurso nas escolas alemãs. Quando regressou aos EUA, publicou um relatório com as observações efectuadas nas escolas europeias. Isto interessou aos pais das crianças surdas americanas que começaram a exigir o ensino oral.

  • Ferdinand Berthier (1803-1886), surdo

Ingressou, em 1811, como jovem estudante no Instituto Nacional de Surdos-Mudos de Paris, quando este era dirigido pelo Abade Sicard. Foi muito influenciado por 2 estudantes desse Instituto: Jean Massieu e Laurent Clerc. Com 27 anos, Berthier tornara-se num dos professores mais relevantes do Instituto.


Berthier ficou na História como um acérrimo defensor da identidade dos surdos e da Língua Gestual. Escreveu vários livros acerca da História dos Surdos.

  • Alice Cogswell (1805-1830), surda

Uma meningite aos dois anos de idade afectou a sua audição para sempre.


O seu pai, Dr. Cogswell, cirurgião, em conjunto com 9 personalidades locais, ao perceberem que 84 surdos daquele Estado (New England), necessitavam de uma educação específica, enviaram o então jovem, Thomas Gallaudet, numa viagem à Europa, para se formar no ensino de surdos, já que à data não existiam educadores para surdos nos EUA.


Esta viagem teve como consequência a fundação da 1ª escola para surdos no EUA: a Escola de Hartford.

Quando a escola em Hartford foi inaugurada, a inscrição de Cogswell foi a primeira que receberam.

Ainda hoje, no campus da escola de Hartford, existe uma estátua de Gallaudet com Alice Cogswell.

  • Gardiner Hubbard (1822-1897)

Hubbard tinha uma filha que ficou surda devido a escarlatina, aos 4 anos de idade. A sua filha foi ensinada por um professor ouvinte através do método oralista.


Em 1864, Hubbard e Howe, entre outros, elaboraram uma petição ao supremo Tribunal de Massachussetts para criar uma escola oralista para surdos, mas sem sucesso, devido à influência da escola de Hartford.

Hubbard não desistiu e deu suporte financeiro para a abertura de uma escola privada.


Em Março de 1867, vários jovens surdos foram convidados a demonstrarem o sucesso do ensino oralista perante representantes do Estado. Os legisladores do estado, agradados com o que viram, elaboraram um documento a autorizar a abertura de uma escola pública oralista.


A professora Harriet Rogers e os seus alunos mudaram-se para Northampton, para iniciar a Escola Clark para Surdos, em Outubro de 1897.

  • Edward Gallaudet (1837-1917)

Filho de Thomas Hopkins Gallaudet, cedo integrou a equipa do Asilo para Surdos, actual Escola Americana para Surdos, em Hartford, onde começou a sua carreira de professor de surdos. Ao mesmo tempo, fez ainda um mestrado e um doutoramento.


Em 1857, Amos Kendall doou 8000 m2 para a criação de uma escola de surdos e cegos em Washington D.C., e convidou Edward Gallaudet para o ajudar a dirigi-la.


O convite foi prontamente aceite, tornando-o no 1º director do Instituto de Columbia para surdos e cegos, posteriormente elevado a colégio. Este 1º Colégio de Surdos deu origem, mais tarde, à Universidade Gallaudet. Edward Gallaudet foi presidente do Colégio Gallaudet/Instituto de Columbia durante 40 anos.


Viajou até à Europa, em 1867. Visitou escolas oralistas, gestuais e mistas na França, Itália, Inglaterra e Alemanha, onde encontrou a utilização do método combinado.

  • Alexandre Graham Bell (1847-1922)

Bell foi para os EUA onde trabalhou com surdos, sempre para a sua oralização. Inventou o telefone, provando o seu domínio sobre a natureza do som e quis fazer o mesmo em relação à surdez.

Casou com uma surda, que perdera a audição enquanto jovem, e fora educada oralmente. Bell foi sempre defensor do oralismo e opositor da Língua Gestual.


Em 1887, Bell e Edward Gallaudet participaram num encontro promovido pela Comissão Real Britânica, em Inglaterra, onde discutiram os seus pontos de vista sobre a pessoa surda.


A comissão concluiu, então, que os surdos deveriam ser ensinados através da oralidade, durante 1 ano. Caso não beneficiassem, poderiam ser expostos à Língua Gestual (ou seja, esta era 2ª opção).

  • Hellen Keller (1880 —1968)

Helen Keller ficou cega e surda, desde os 2, anos devido a uma doença diagnosticada na época como febre cerebral (hoje acredita-se que tenha sido escarlatina). Superou todos os obstáculos, tornando-se uma das mais notáveis personalidades do século XX. Apesar da surdo-cegueira, obteve graus universitários e publicou vários trabalhos autobiográficos.


Anne Sullivan foi a sua professora, companheira e protectora.

Aos 6 anos, aconselhados pelo Dr. Alexander Graham Bell os seus pais recorreram a Anne Sullivan, uma jovem de 20 anos, então recentemente graduada no Instituto Perkins para cegos, em Boston, para educar a sua filha.

Aos 7 anos, confiada a Dra. Sullivan, passou a estudar como exprimir-se em ASL. Aprendeu em seguida a escrever no sistema Braille, e a usar uma máquina especialmente desenhada para ela. Graduou-se (1894) na Universidade de Radcliffe e passou a trabalhar na Comissão de Cegos de Massachusetts e a dar conferências por todo o mundo, por 39 países.


Chegou a dominar vários idiomas (inglês, francês, alemão, grego e latim) aprendeu a ler em diferentes sistemas para cegos e publicou, entre outros livros, «Historia de minha vida» (1903), «O mundo em que vivo» (1908), «Sair da escuridão» (1913),«Os meus anos posteriores» (1930), Tenhamos fé (1940), «Mestra Ana Sullivan Macy» (1955) e «A porta aberta» (1957).

  • Conferência de Milão de 1880

O Congresso de Milão foi uma conferência internacional educadores de surdos, em 1880. Depois de deliberações de 6 a 11 de Setembro de 1880, o congresso declara que a educação oralista é superior ao da língua gestual e aprovou uma resolução que proíbe o uso da língua gestual nas escolas. Desde a sua aprovação em 1880, as escolas em todos os países europeus e os Estados Unidos mudaram para utilização terapêutica excluindo o uso da língua gestual como método de educação para os surdos.

  • Antes do Congresso

Antes do Congresso, na Europa, durante o século XVIII, surgiam duas tendências distintas na educação dos surdos: o gestualismo (ou método francês) e o oralismo (ou método alemão). A grande maioria dos surdos defendia o gestualismo enquanto que apenas os ouvintes apoiavam o gestualismo - por exemplo Bell, nos EUA, fazia campanha a favor deste método, entre muitos outros professores, médicos, etc.

  • Resoluções do Congresso de Milão

O Congresso de Milão, em 1880, foi um momento obscuro na História dos surdos, uma que lá um grupo de ouvintes, tomou a decisão de excluir a língua gestual do ensino de surdos, substituindo-a pelo oralismo (o comité do congresso era unicamente constituído por ouvintes.) Em consequência disso, o oralismo foi a técnica preferida na educação dos surdos durante fins do século XIX e grande parte do século XX.


O Congresso durou 3 dias, nos quais foram votadas 8 resoluções, sendo que apenas uma (a terceira) foi aprovada por unanimidade. As resoluções são:


O uso da língua falada, no ensino e educação dos surdos, deve preferir-se à língua gestual;


O uso da língua gestual em simultâneo com a língua oral, no ensino de surdos, afecta a fala, a leitura labial e a clareza dos conceitos, pelo que a língua articulada pura deve ser preferida;


Os governos devem tomar medidas para que todos os surdos recebam educação;


O método mais apropriado para os surdos se apropriarem da fala é o método intuitivo (primeiro a fala depois a escrita); a gramática deve ser ensinada através de exemplos práticos, com a maior clareza possível; devem ser facultados aos surdos livros com palavras e formas de linguagem conhecidas pelo surdo;


Os educadores de surdos, do método oralista, devem aplicar-se na elaboração de obras específicas desta matéria;


Os surdos, depois de terminado o seu ensino oralista, não esqueceram o conhecimento adquirido, devendo, por isso, usar a língua oral na conversação com pessoas falantes, já que a fala se desenvolve com a prática;


A idade mais favorável para admitir uma criança surda na escola é entre os 8-10 anos, sendo que a criança deve permanecer na escola um mínimo de 7-8 anos; nenhum educador de surdos deve ter mais de 10 alunos em simultâneo;


Com o objectivo de se implementar, com urgência, o método oralista, deviam ser reunidas as crianças surdas recém admitidas nas escolas, onde deveriam ser instruídas através da fala; essas mesmas crianças deveriam estar separadas das crianças mais avançadas, que já haviam recebido educação gestual, afim de que não fossem contaminadas; os alunos antigos também deveriam ser ensinados segundo este novo sistema oral.


Uma década depois do Congresso de Milão, acreditava-se que o ensino da língua gestual quase tinha desaparecido das escolas em toda a Europa, e o oralismo espalhava-se para outros continentes.

História dos Surdos no Mundo - cont.

Da Idade Moderna à Idade Contemporânea


  • Rudolphus Agricola – 1443- 1485

Interessou-se pelo mundo dos surdos, escreveu um livro “De inventione Dialectica”, no qual afirmou que uma pessoa surda de nascença pode expressar-se através da escrita (desejos, sentimentos, …). Este livro só foi publicado 100 anos mais tarde.


  • Girolamo Cardano – 1501-1576

Foi um médico italiano que tinha um filho surdo e tomou contacto com o livro de Agricola. Ele concordou que “o sentido da audição e o uso da fala não eram indispensáveis à compreensão das ideias”. Cardano acreditava que os surdos precisavam de aprender a ler e a escrever, tarefa que considerava difícil mas não impossível. Afirmou, ainda, que é possível expressar os pensamentos quer através de palavras quer de gestos.


  • Pedro Ponce De Leon – 1520- 1584

Monge católico, fundou a primeira escola do mundo para surdos, no Mosteiro de S. Salvador, perto de Madrid, Espanha. O seu objectivo era “ensinar os surdos a escrever, enquanto apontava com o dedo o objecto que estava a ser representado através da escrita, depois exercitava, através da repetição frequente, os surdos a vocalizar as palavras. Os registos do Método de Leon foram destruídos num incêndio.


  • Juan Pablo Bonet – 1579 – 1620

Em 1620 publicou o livro “Redução das Letras e Arte para Ensinar a Falar os Mudos”. Ele acreditava que os “surdos-mudos” deviam aprender um alfabeto manual utilizando gravuras que mostravam a posição da mão para cada letra, antes de iniciar a aprendizagem da leitura e da escrita e também da leitura labial.


  • John Bulwer – 1614 – 1684

Médico inglês publicou os seus 2 primeiros livros em 1644 intitulados: “Linguagem Natural da Mão” e “A Arte da Retórica Manual”. Estava convicto que a “linguagem da mão” era a “única linguagem natural para todos os homens, particularmente para os surdos”, através da utilização de um alfabeto manual.

Em 1648 publicou “O amigo do Homem Surdo e Mudo”, o 1º livro inglês que explicava a especificidade da surdez e os problemas de linguagem que a acompanham, mas não se dedicou ao ensino de surdos.


  • George Dalgarno - 1626- 1687

Intelectual escocês que em 1680, publicou um livro – “O tutor do Homem Surdo e Mudo”. Neste livro explana diferentes teorias sobre formas de ensinar linguagem aos surdos. Acreditava que era possível ensinar surdos a falar e fazer leitura labial, mas aconselhava o ensino do alfabeto manual. Aconselhava as mães a utilizar a soletração manual enquanto apontavam determinados objectos.


  • Johan Konrad Amman – 1698 – 1774

Doutorado em Medicina, interessou-se pela educação de surdos com idades entre 8 e 15 anos. Pretendia que os seus alunos “tivessem uma boa voz e que a controlassem bem”. Descobriu que “eles sentiam as vibrações da sua voz quando colocavam as mãos sobre as suas gargantas. A leitura labial era também um dos seus objectivos.

Amman acreditava que o uso da Língua Gestual atrofiava a mente, relativamente ao desenvolvimento da fala e do pensamento. No entanto, utilizava alguns gestos e o alfabeto manual como meio de atingir a fala, embora não o admitisse publicamente.


  • Charles Michel De L’Eppe – 1712 – 1789

Nasceu em França e era padre. Interessou-se pela educação de surdos. Criou um abrigo para surdos em Paris e começou a educar surdos em condições de escola. Vivia com os surdos, supria as suas necessidades físicas, vestia-os e alimentava-os. Em 1776 publicou o livro “Instrução dos surdos-mudos usando símbolos metodológicos”. Escreveu um dicionário para uso dos surdos-mudos (que continha mais explicações do que signos).


  • Jacob Rodrigues Pereira – 1715 – 1780

Importante professor de surdos, filho de pais portugueses. Ensinava pequenos grupos de surdos e tinha como lema “Não existirão mais surdos-mudos, mas sim surdos que falam”. O seu método permaneceu secreto: morreu com o seu autor.


  • Thomas Braidwood (1715-1806)

Em 1760, fundou, em Edimburgo, a primeira escola na Grã-Bretanha como academia privada. Em 1783, transferiu-se para Londres e recomendou o uso de um alfabeto onde se utilizassem as duas mãos que ainda hoje está em uso na Inglaterra.


  • Samuel Heinicke (1727-1790)

Os métodos de Heinicke eram estritamente orais. Opôs-se fortemente à utilização da língua gestual. Teve grande sucesso no ensino a um jovem que aprendeu a falar, a ler os lábios e a escrever. Em 1778, abriu a primeira escola para os surdos na Alemanha. Ficou conhecido como o Padre do Método Alemão.

O seu grande objectivo foi conseguir que os surdos falassem. Considerava que o método para ensinar o surdos, através da dactilologia, era perigoso e prejudicial para os seus alunos.

Heinicke concluiu que os surdos deviam, 1º, aprender a falar e depois escrever, tal como as crianças ouvintes.

História dos Surdos no Mundo


Bem, para conhecer a Língua Gestual Portuguesa, (ou outras Línguas Gestuais), é importante conhecer um pouco sobre a História da Comunidade Surda para perceber a evolução das próprias línguas gestuais, da educação dos Surdos e os avanços e retrocessos na forma como as línguas gestuais e os Surdos foram encarados ao longo dos séculos.


É apenas um resumo, tentei ser sintética e sei que muito mais haveria a dizer e escrever sobre a História dos Surdos, por isso, se ficarem dúvidas, estão à vontade para me pedirem mais detalhes e pormenores sobre o assunto.

E deixo também a sugestão de um livro muito bom e detalhado sobre este assunto, intitulado «História dos Surdos em Portugal e no Mundo», de Paulo Vaz de Carvalho (professor de História no CED Jacob Rodrigues Pereira), da editora Surd'Universo
.



Da Antiguidade à Idade Média

  • Os Surdos no Egipto

No Egipto, os Surdos eram adorados como deuses. Os egípcios acreditavam que transmitiam mensagens secretas dos deuses ao Faraó, que por sua vez as transmitia ao povo.

Assim, os Surdos serviam de mediadores entre os deuses e os Faraós.

Era uma forma dos faraós imporem o seu poder ao povo, legitimado por pessoas especiais que tinham ligações aos deuses.

Por serem vistos como seres estranhos com uma forma diferente de comunicar, a população em geral temia-os e respeitava-os.

  • Os Surdos na Palestina

Em 1000 a.C. surgem as 1ªs referências aos surdos na História judicial, com a Lei Hebraica (Talmude), distinguindo:

Os que são surdos e mudos;
Os que são só surdos:
Os que são só mudos.

Consoante a categoria a que pertenciam, tinham direitos e restrições específicas (ex. posse de propriedades e casamento).

Mais tarde, os romanos adoptaram esta lei.

Estas leis protegiam as pessoas surdas de serem amaldiçoadas, mas, por outro lado, impediam-nas de participar de uma forma plena nos rituais dos templos judaicos.

  • Os Surdos na Grécia

Para os gregos, os surdos não eram seres competentes, pois defendiam que o pensamento só se desenvolvia com linguagem e, para eles, só a fala desenvolvia a linguagem.

Assim, os surdos não recebiam educação: Aristóteles, em 355 a.C., defendeu que os que nasciam surdos, por não terem linguagem, eram incapazes de raciocinar.

Consideravam, portanto, as pessoas surdas que não dispunham de linguagem como não-humanas. Mas, se perdiam a audição mais tarde e falavam, já faziam parte da sociedade.

Eram também consideradas pessoas sem direitos porque não eram úteis à cidade e, muitas vezes, condenavam-nos à morte.

Eram marginalizados, juntamente com os doentes e os débeis mentais.

Os gregos tinham um ideal: atingir a perfeição física e intelectual, pelo que alguém sem audição era considerado um ser imperfeito.

No entanto, o filósofo Sócrates, em 360 a. C., considerou que era lógico e aceitável os surdos comunicarem naturalmente usando as mãos, a cabeça e outras partes do corpo, por estarem privados da audição.

  • Os Surdos em Roma

Os romanos foram muito influenciados pelos gregos, por isso, a sua posição em relação aos Surdos era idêntica.

Também viam o surdo como um ser imperfeito e indigno de pertencer à sociedade.

Lançavam as crianças Surdas, possivelmente apenas as pobres, ao rio Tibre, ao cuidados das Ninfas.

Lucrécio escreveu um poema, em cerca de 30 a.C, dizendo que os surdos não podiam ser instruídos, nem a sua inteligência ensinada

Plínio, na sua História Natural (70 d. C), refere Quintus Pedius, um artista surdo, muito talentoso, filho de um Cônsul Romano. Pedius necessitou de uma autorização especial do Imperador César Augusto para desempenhar a sua profissão.

Em 529 d. C., o Imperador Justiniano criou uma lei que impossibilitava aos surdos de possuir propriedades e impedia-os de celebrar contratos de redigir testamentos.

A lei, chamada de Código Justiniano, influenciado pelo Talmude, distingue 5 categorias diferentes de surdos:

Os que nasciam surdos e mudos;
Os que ficavam surdos e mudos em vida;
Os que nasciam surdos, mas não ficavam mudos;
Os que ficavam surdos em vida sem perder a fala;
Os que eram só mudos.

Na sociedade romana, os que nasciam surdos e mudos não tinham direitos nem obrigações. Não podiam possuir propriedades nem celebrar contratos.

Como não podiam possuir terras nem títulos, as heranças a que tinham direito passavam para os seus parentes mais próximos.

Porém, os surdos que falavam tinham direitos legais. Podiam ter propriedades, casar e redigir testamentos.

A capacidade da fala era, portanto, decisiva para o enquadramento legal das pessoas surdas.

  • Os Surdos Em Constantinopla

Em Constantinopla, os Surdos teriam os mesmos impedimentos legais de Roma, pelo Código Justiniano, que irão acompanhar os surdos por muitos séculos.

Na maioria das vezes, os surdos prestavam serviço na corte interior, servindo de pajens às mulheres.
Como não ouviam, eram explorados e assim aceites pela sociedade.
Alguns surdos serviam também como mimos para entretenimento do sultão.

  • Os Surdos na Idade Média

Santo Agostinho (354-430 d.C.) acreditava que os que tinham filhos surdos estavam a pagar pelos seus pecados.
Também defendia que os surdos podiam aprender e transmitir conhecimento através dos gestos que seriam assim equivalentes à fala para a salvação da alma.

A Igreja Católica, até à Idade Média, acreditava que a alma dos surdos não era imortal, pois eles não diziam os sacramentos. E, até ao século XII, não se podiam casar.

Em 700 d. C., em York, um Arcebispo inglês, John de Beverley, ensinou um surdo a falar. É o 1º documento acerca da tentativa de ensinar uma pessoa surda a falar, contrariando as ideias de Aristóteles e de santo Agostinho, que defendiam que os surdos não podiam ser educados.

Tudo começou quando um rapaz, que não ouvia nem falava, interrompeu o Arcebispo de York enquanto rezava.
O Arcebispo interessou-se logo, pois o rapaz pareceu-lhe muito esperto. Começou a ensiná-lo a ler e a escrever, em segredo.

Quando viu que o rapaz já conseguia dizer o “Pai Nosso”, pediu-lhe para ir à missa de domingo. Então, à frente dos presentes, o Arcebispo benzeu-lhe a língua e o rapaz começou a dizer a oração que tinha aprendido. Todos acharam tratar-se de um milagre.

Por esta razão, alguns autores consideram que John de Beverley, falecido em 721, foi o 1º educador de surdos da História.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

21 de Janeiro - dia do intérprete de Lingua Gestual Portuguesa

Hoje, 21 de Janeiro comemora-se o Dia do Intérprete de Língua Gestual Portuguesa. :)

Uma profissão que conheço tão bem, (porque é a minha :)), mas tantas vezes menosprezada pelos outros, incompreendida, pelo menos quanto à sua importância e necessidade de existir. Por isso deixo-vos algumas palavras sobre esta profissão, que é também uma arte, e que constitui uma parte tão importante na minha vida, e na de toda a comunidade surda que beneficia com o meu trabalho e o dos meus/minhas colegas de profissão.

Os interpretes de Língua Gestual são "os profissionais que interpretam e traduzem a informação da língua gestual para a língua oral ou escrita e vice-versa e, de forma a assegurar a comunicação entre pessoas surdas e ouvintes" (artigo 2º da lei 89/99 de 5 de Julho).

Quer isto dizer que o intérprete de Língua Gestual (Portuguesa, ou outra), funciona como elo de ligação entre pessoas surdas e ouvintes, de modo a que, com o seu trabalho, a barreira de comunicação que existe entre os indivíduos destas duas comunidades, desapareça. É como uma "ponte", entre pessoas que utilizam línguas diferentes entre si, e que, sem a presença do intérprete, as falhas de comunicação daria aso a muitos mal-entendidos...

Claro que como profissão que é, está sujeita a regras. Possuímos um código de ética, e normas de conduta que qualquer profissional, mas mais especificamente o intérprete de uma língua gestual (portuguesa ou outra), deve seguir.

Algumas dessas normas de conduta são:

  • Confidencialidade/sigilo profissional: Naturalmente que todas as informações às quais temos acesso no exercer da nossa profissão enquanto intérpretes, somos obrigados ao sigilo profissional, seja em que contexto for. Só assim terá profissionalismo e credibilidade profissional.
  • flexibilidade/adaptabilidade: Como o trabalho de um intérprete é necessário em vários contextos (escola, hospital, tribunal, tv, conferências, celebração religiosa,formação profissional, etc., ... ), o intérprete deve poder adaptar-se a todas as situações em que é chamado a exercer o seu trabalho.
  • objectividade/imparcialidade: o intérprete deve manter um distanciamento profissional das situações nas quais é chamado, e das pessoas envolvidas. Os intervenientes são as pessoas surdas e ouvintes que querem ou precisam de estabelecer comunicação entre eles, naquele momento. O intérprete deve ser apenas a "ponte" de comunicação, e não se envolver nem intervir pessoalmente na situação, mantendo a distancia profissional e imparcialidade que a sua profissão exige.
  • atitude profissional: o intérprete nunca sabe tudo, até porque novos gestos estão sempre a ser criados, enquanto que outros caem em desuso. O intérprete deve por isso preocupar-se em frequentar acções de reciclagem de lgp, para se manter actualizado da própria evolução da lgp. Também é válido para a questão dos regionalismos de uma língua gestual. Nas diversas regiões do país utilizam-se alguns gestos que diferem de região para região. Assim sendo, cabe ao intérprete o se actualizar dos gestos da região onde está a trabalhar, especialmente se não for a sua região natal ou na qual tenha aprendido a língua gestual que utiliza. Cabe ao intérprete se adaptar aos gestos realizados na região onde está, assim como adaptar-se ao nível linguístico das pessoas envolvidas, pois, algumas pessoas surdas possuem níveis de vocabulário um tanto rudimentares ou básicos, seja em português ou lgp. São situações com que o intérprete é deparado e com as quais tem que lidar e adaptar-se ao nível linguístico dos intervenientes.
  • pontualidade e responsabilidade: normas de conduta abrangentes a todas as profissões, não sendo esta uma excepção. é importantíssimo que o interprete seja pontual. O seu atraso ou ausência prejudicam naturalmente as pessoas envolvidas na situação que seria necessário o trabalho do intérprete. Contudo, claro que o intérprete é, antes demais, uma pessoa, de carne e osso, e como tal, também está sujeita a motivos que causem a sua ausência, como doença, por exemplo. Em tais situações, deve-se assegurar um substituto, de modo a não prejudicar as pessoas envolvidas na situação de tradução.

Outras características essenciais a um intérprete:

  • espontaneidade de expressão facial e corporal, dado que a língua gestual necessita que a expressão acompanhe o gesto, até porque alguns gestos são parecidos ou até o mesmo gesto, e o que os diferencia são, para além do contexto, a expressão utilizada pelo gestuante.
  • Para garantir que nenhuma informação se perca nem fique deturpada, é importante que o intérprete tenha grande capacidade de concentração, memorização, treino auditivo e rápida compreensão dos discursos orais e gestuais.
  • Tendo em conta que o intérprete é chamado para exercer a sua função nas mais diversas situações e contextos, é essencial que desenvolva competências linguísticas e de cultura geral. é necessário que saiba "de tudo um pouco", para poder realizar uma melhor tradução, a mais fiel possível à mensagem a transmitir.

E como o dia é de festa, para toda a comunidade surda, nada melhor do que terminar este post com uma música, interpretada, por mim, em língua gestual portuguesa, claro está. :)


quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Gesto «Passagem de ano» - LGP - 31 Dezembro - Sign of the day

Olá a tod@s! :)

E como hoje é o último dia do ano 2009, e só pensamos no novo ano que se aproxima, o «sign of the day» /gesto do dia de hoje é a expressão «passagem de ano». :)

Este post, para além de ser o último de 2009, é também o último desta iniciativa «sign of the day» («gesto do dia», traduzido para português :)), onde, nestes últimos 3 meses, de Outubro a Dezembro, tentei divulgar um pouco mais a Lingua Gestual Portuguesa (LGP), com um gesto por dia, com gestos que, por vezes, não se enquadravam nos posts temáticos que colocava antes. O "projecto" «sign of the day» terminou, pois tinha definido um prazo de 3 meses, que hoje chega ao fim, mas não este blog, e a partir de amanhã, 1 de Janeiro, haverá novidades, e mais posts sobre e com LGP. :)

Espero que ao longo destes 3 meses todas as pessoas que visitaram este blog tenham aprendido um pouquinho que seja desta língua que milhares de pessoas utilizam diariamente, e que tenham ficado sensibilizadas para a temática da surdez, dos surdos e da LGP. Porque é tão importante derrubar as barreiras de comunicação entre surdos e ouvintes e esse foi o meu objectivo com este blog e com a divulgação que tento fazer da LGP. Só partilhando os conhecimentos de cada um, a sociedade evolui. :)

A tod@s um óptimo ano 2010. :)